quinta-feira, 27 de setembro de 2012


Há um pingo batendo insistentemente numa lata vazia embaixo da minha janela.
Ele bate na borda e explode em pinguinhos multicoloridos iluminados por um sol quente.
Sinto que a lata enche. O som do pingo muda.
Estou com olhos fixos no teto branco descascado. Vejo os filetes escurecidos produzidos por alguma infiltração recente. Meu corpo entorpecido nada reclama, está anestesiado pelo tempo e pelo desvalor.
Eu sinto o cheiro de mofo, estou apodrecendo.
E levanto de um salto, sinto vertigens. Seu amor me convoca a isso, com uma mão forte, mas muito terna, ora me puxa com suavidade, ora me empurra com singeleza.
Meu espanto é novo: o cheiro de mofo, o pingo na lata, o descascar do teto, eu apodrecendo.
E tudo acontece com uma lentidão aparente, mas é o tipo de coisa que se demora a perceber. Como um cenário mudo, estático: você vira o rosto e olha de novo, o mesmo cenário, as mesmas coisas, se demora e volta, há uma pequenina mudança, uma ínfima linha divisória que já não está lá, uma sensação térmica sutilmente diferente.
É a mudança. Ela chega tão doce quanto certa. E a gente só tem isso, este momento, pra estacar e observar cada segundo deste instante.

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