Há um pingo batendo insistentemente numa lata vazia embaixo
da minha janela.
Ele bate na borda e explode em pinguinhos multicoloridos
iluminados por um sol quente.
Sinto que a lata enche. O som do pingo muda.
Estou com olhos fixos no teto branco descascado. Vejo os
filetes escurecidos produzidos por alguma infiltração recente. Meu corpo
entorpecido nada reclama, está anestesiado pelo tempo e pelo desvalor.
Eu sinto o cheiro de mofo, estou apodrecendo.
E levanto de um salto, sinto vertigens. Seu amor me convoca
a isso, com uma mão forte, mas muito terna, ora me puxa com suavidade, ora me
empurra com singeleza.
Meu espanto é novo: o cheiro de mofo, o pingo na lata, o
descascar do teto, eu apodrecendo.
E tudo acontece com uma lentidão aparente, mas é o tipo de
coisa que se demora a perceber. Como um cenário mudo, estático: você vira o
rosto e olha de novo, o mesmo cenário, as mesmas coisas, se demora e volta, há
uma pequenina mudança, uma ínfima linha divisória que já não está lá, uma
sensação térmica sutilmente diferente.
É a mudança. Ela chega tão doce quanto certa. E a gente só
tem isso, este momento, pra estacar e observar cada segundo deste instante.
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