quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Estrangeiro, meu amor. Estrangeiro em meu mundo, bem assim eu me sinto. O que deveria ser familiar, cotidiano, parece assombrosa novidade, novidade desconhecida e alheia.
Preciso descobrir em mim o Pertencimento. Precisamos, nós, dos nós que desatam a luminosidade oculta, o divórcio do mundo, a ausência do Todo.


Há um pingo batendo insistentemente numa lata vazia embaixo da minha janela.
Ele bate na borda e explode em pinguinhos multicoloridos iluminados por um sol quente.
Sinto que a lata enche. O som do pingo muda.
Estou com olhos fixos no teto branco descascado. Vejo os filetes escurecidos produzidos por alguma infiltração recente. Meu corpo entorpecido nada reclama, está anestesiado pelo tempo e pelo desvalor.
Eu sinto o cheiro de mofo, estou apodrecendo.
E levanto de um salto, sinto vertigens. Seu amor me convoca a isso, com uma mão forte, mas muito terna, ora me puxa com suavidade, ora me empurra com singeleza.
Meu espanto é novo: o cheiro de mofo, o pingo na lata, o descascar do teto, eu apodrecendo.
E tudo acontece com uma lentidão aparente, mas é o tipo de coisa que se demora a perceber. Como um cenário mudo, estático: você vira o rosto e olha de novo, o mesmo cenário, as mesmas coisas, se demora e volta, há uma pequenina mudança, uma ínfima linha divisória que já não está lá, uma sensação térmica sutilmente diferente.
É a mudança. Ela chega tão doce quanto certa. E a gente só tem isso, este momento, pra estacar e observar cada segundo deste instante.

terça-feira, 25 de setembro de 2012


leve meu amor
no bolso da camisa,
querido, por favor

a carta

para o filósofo

antes de te conhecer eu não tinha a mínima ideia do que eu queria. é verdade que eu sentia tremores de prazer e alguns impulsos estranhos, mas sempre me reprimia. saber da tua existência trouxe um renovo diferente. o tipo de sopro que sempre busquei. ainda não sei nomes e não vou etiquetar sentimentos, mas a ideia que me vem é esta: de que passei a existir quando você expirou ar dentro de mim. 
sou grata à Vida por este presente. esta sensação ótima de pertencimento a um mundo - um chão - no qual não enraízo. sim é isto. isto é o que eu quero dizer. é como se eu estivesse e não estivesse, mas precisasse de uma mão amorosa pra conduzir-me. 
veja, você não é o único, nunca foi e nunca será. o que ocorre, eu sei, cada um que passa deixa seus vestígios e nós os guardamos, usufruímos ou não. cada pessoa deixa algo de si. você, contudo, deixa a si mesmo, pleno, fruto maduro, suculento. 
e eu o como!
um caldo escorre pelo vão da boca. me lambuzo de você. e gozo a cada arrepio frio de sua essência em minha pele. 
seu olhos são como burcas coloridas soltas num universo paralelo. são estrelas pontudas que me açoitam eroticamente. cada palavra que sai de sua boca vem com sons de guiso, hipnotiza minha língua e entorpece meus sentidos. você sabe o que está fazendo, me conduz pro abismo com a maestria de um deus e a elegância de um bailarino. 
não que eu sozinha não saiba conduzir meu próprio corpo, é que antes de fazê-lo me cabe aprender. E aprendo contigo.

sua menininha

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

toco meu próprio olho
para consertar o foco
e o que vejo?
seu próprio olho
tão logo corrijo o meu

sábado, 22 de setembro de 2012

Olho o teu silêncio
Queria poder fazer mais
Mais que o acalanto do colo quentinho
Ou que o olhar amoroso a velar teu sono

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

hoje pousou um corvo sobre meu telhado
você sabe, você viu
me tocou muito seu olhar de colo
amor, você é um eco da minha alma
segurou minha mão quando chorei
ainda que eu olhasse para outro lado
amor é esse tipo de desapego
empurra a gente pro caminho certo
mesmo com dor de morte
SEXO
Nunca quis tanto
me indiferenciar,
me perder,
me encontrar,
ensandecer,
me amar, emocionar, apaixonar
me agarrar, entregar, amalgamar
e desfalecer!
para, por fim, [novamente]
renascer,
em você

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

ainda ei de escrever as cartas
não te falei das cartas?
te amo
e é interessante como as duas palavras se conectam

assim: vejo-as entrelaçando
mãos dadas, meio amedrontadas
mas se juntam

suspiram, ambas
e choram
unidas

um pulo no abismo


há dor, sempre há
mas há flores também
e coisas que diferem
como eu, você e o universo

somos um, mas somos dois
notas? noto em nossas notas
ora curtas, ora longas
eu sou a verborrágica
nem tudo parece o que quero
digo tudo, tudo, tudo mesmo

eu sou assim...

terça-feira, 18 de setembro de 2012